Longevidade
O que o intestino tem a ver com o envelhecimento?
Estudos mostram ligação de longevidade com microbioma.

Natasha Franco
Jornalista

Hábitos como alimentação, atividade física e até mesmo uso de medicamentos interferem no papel desses microrganismos na saúde.
O corpo humano tem, aproximadamente, 38 trilhões de microrganismos, espalhados em nossa pele, boca, sistema respiratório, vagina e até nos olhos. Porém, os micróbios mais famosos do organismo humano são os que compõem a microbiota intestinal.
Muito se fala sobre o papel dessa colônia do intestino em diversos pontos da nossa saúde, o que tornou o órgão como não só parte do sistema digestivo, como órgão metabólico e neuroendócrino complexo. Com papel até na forma como envelhecemos!
Uma das descobertas mais interessantes da medicina nos últimos anos foi perceber que envelhecemos acompanhados por trilhões de microrganismos que vivem no nosso intestino e que eles participam ativamente desse processo, conta a gastroenterologista Rhaissa Said, membro titular da Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG).
De acordo com ela, isso tudo está ligado à atuação dessas bactérias no metabolismo, imunidade, integridade da barreira intestinal e controle da inflamação. E depende muito da diversidade de microrganismos que temos nessa colônia intestinal.
Como o microbioma intestinal atua no envelhecimento?
Com o passar do tempo, pode ocorrer uma redução na diversidade da nossa microbiota intestinal, o que leva a alterações na produção de metabólitos importantes para a saúde. “Essas mudanças podem favorecer aumento da permeabilidade intestinal e um estado de inflamação crônica de baixa intensidade conhecido como inflammaging, considerado um dos principais motores biológicos do envelhecimento”, reforça Said.
O ponto é que quanto mais diversa é a microbiota, maior é sua capacidade de proteger o organismo. “As diferentes bactérias trabalham em conjunto produzindo substâncias que fortalecem a parede do intestino, ajudam a controlar a inflamação e regulam o funcionamento do sistema imunológico”, esclarece o nutrólogo e médico do esporte Thiago Viana.
Dentre as substâncias produzidas estão ácidos graxos de cadeia curta, vitaminas, poliaminas e derivados do triptofano, todos ligados ao melhor funcionamento do sistema imunológico e à prevenção da inflamação sistêmica.
“Quando essa diversidade diminui, microrganismos potencialmente nocivos ganham espaço e passam a produzir substâncias associadas à inflamação crônica, resistência à insulina e fragilidade”, comenta a gastroenterologista Said. “Diversos estudos demonstram que idosos com menor diversidade microbiana apresentam mais inflamação, mais doenças associadas ao envelhecimento e pior capacidade funcional”, finaliza a especialista.
Alguns tipos específicos de grupos bacterianos foram avistados nas microbiotas relacionadas a um melhor envelhecimento, como Akkermansia muciniphila, Christensenellaceae e determinadas espécies de Bifidobacterium. Mas, no final das contas, não existe uma bactéria da longevidade. O segredo está em ter um microbioma diverso.
“Pesquisadores italianos que estudaram indivíduos com mais de 100 anos observaram que eles não possuem uma microbiota igual à de adultos jovens. Esses indivíduos costumam apresentar maior diversidade microbiana, comunidades bacterianas mais estáveis e maior capacidade de produzir metabólitos benéficos, especialmente os ácidos graxos de cadeia curta, como o butirato”, descreve Rhaissa.
Como ajudar a microbiota a envelhecer melhor?
Hábitos de vida estão estritamente ligados ao envelhecimento com uma maior diversidade microbiana no intestino. A começar pela alimentação: “As fibras prebióticas funcionam como alimento para as bactérias benéficas, enquanto os compostos fenólicos presentes em frutas, verduras, cacau, café, chá verde e azeite de oliva ajudam a favorecer o crescimento desses microrganismos”, enumera Viana.
Said lembra como alguns estudos viram a relação de uma dieta mediterrânea com um intestino com bactérias mais saudáveis. “Após um ano seguindo um padrão alimentar semelhante à dieta mediterrânea, idosos apresentaram aumento de bactérias produtoras de metabólitos benéficos e redução de grupos associados à fragilidade”, explica a gastroenterologista.
“O mais interessante é que essas mudanças ocorreram antes do aparecimento de manifestações clínicas relevantes, sugerindo que a microbiota pode ser um dos primeiros alvos de estratégias preventivas para um envelhecimento saudável”, finaliza a especialista.
Além da alimentação, ambos os médicos reforçam outros hábitos saudáveis: atividade física regular, sono adequado, redução do consumo de ultraprocessados, cuidado com a saúde oral e uso criterioso de antibióticos são estratégias que ajudam a preservar a resiliência da microbiota.
Em última análise, envelhecer bem não depende apenas dos genes que herdamos. Depende também da relação que cultivamos, durante toda a vida, com os trilhões de microrganismos que habitam nosso intestino, finaliza Said.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica individual.
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