Alimentação & Metabolismo
Como as “canetas emagrecedoras” estão mudando a relação das pessoas com a comida?
Novos medicamentos revelam como o cérebro influencia nossa relação com a comida.
Raquel Drehmer
Jornalista

Os medicamentos à base de GLP-1 estão transformando a compreensão da obesidade ao mostrar que fome, saciedade e desejo por comida são influenciados por mecanismos biológicos, e não apenas pela força de vontade. Além de reduzir o chamado “ruído alimentar”, esses tratamentos reforçam a necessidade de uma abordagem multiprofissional, capaz de considerar também os aspectos emocionais, sociais e comportamentais envolvidos na doença.
Ao longo de gerações, milhões de pessoas acreditaram em uma afirmação que parecia incontestável: “quem não consegue emagrecer não tem disciplina e força de vontade”. A resposta para praticamente todos os casos de obesidade era comer menos, resistir às tentações e fazer mais atividade física. A chegada dos medicamentos à base de GLP-1, popularmente chamados de “canetas emagrecedoras”, porém, vem provocando uma mudança profunda nessa forma de pensar. Pela primeira vez, pacientes relatam uma experiência que desafia antigas certezas: o alimento deixa de ocupar um espaço permanente na mente, como se o cérebro finalmente silenciasse um diálogo que parecia inevitável.
Além de serem uma nova estratégia para perda de peso, os agonistas de GLP-1 estão ajudando médicos e pesquisadores a compreender melhor como fome, saciedade, recompensa e comportamento alimentar são regulados biologicamente. O foco da discussão sai da ideia de "força de vontade" para reconhecer que a obesidade é uma doença complexa, resultado da interação entre genética, hormônios, metabolismo, cérebro, ambiente e fatores psicológicos.
Quando a fome deixa de ser apenas uma escolha
Os medicamentos baseados em GLP-1 ajudaram a demonstrar, de maneira muito concreta, que a fome não é simplesmente uma escolha, uma fraqueza moral ou falta de disciplina. Ela é regulada por uma complexa rede biológica que envolve o intestino, o cérebro, o tecido adiposo, o pâncreas e diversos hormônios, afirma o endocrinologista Alexandre Hohl, professor de Endocrinologia e Metabologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Esse entendimento encontra respaldo em uma produção científica crescente sobre o chamado "food noise", ou "ruído alimentar". Em 2025, um painel internacional de especialistas da American Society for Nutrition propôs uma definição formal para o termo: pensamentos persistentes e indesejados sobre comida, capazes de provocar sofrimento emocional e impacto na qualidade de vida. Os pesquisadores destacam que muitos pacientes só perceberam a intensidade desse fenômeno depois que ele diminuiu com o uso dos agonistas de GLP-1, revelando que aquilo antes interpretado como falta de autocontrole pode refletir mecanismos neurobiológicos relacionados à fome e à recompensa.
O significado do "silêncio alimentar"
Daí deriva o chamado “silêncio alimentar”. Hohl explica que esta é uma expressão usada pelos pacientes para descrever a diminuição dos pensamentos persistentes e intrusivos sobre comida. “Estudos de neuroimagem mostram modificações em regiões cerebrais envolvidas no apetite, na emoção e na recompensa. Na prática, a comida pode continuar sendo prazerosa, mas deixa de ocupar uma posição tão dominante no pensamento", discorre o endocrinologista.
Esse relato tem despertado o interesse da psicologia do comportamento alimentar. Revisões recentes sugerem que o desaparecimento parcial do "ruído alimentar" pode representar muito mais do que redução do apetite. Para algumas pessoas, significa experimentar pela primeira vez uma relação menos conflituosa com a comida.
Ao mesmo tempo, pesquisadores alertam que esse novo cenário também exige adaptação emocional. Quando a alimentação deixa de funcionar como principal estratégia para lidar com ansiedade, estresse ou frustrações, outras necessidades psicológicas podem emergir e precisam ser acolhidas por acompanhamento especializado. O próprio grupo que propôs o modelo conceitual CIRO (Cue-Influencer-Reactivity-Outcome) ressalta que o "food noise" ainda está sendo definido cientificamente e não deve ser confundido com transtornos alimentares ou reduzido a uma única explicação biológica.
O medicamento não trata tudo
A redução da fome, entretanto, não significa que todas as dimensões da obesidade sejam resolvidas automaticamente. Autoestima, imagem corporal, sofrimento emocional, padrões aprendidos ao longo da vida e fatores sociais continuam exercendo influência sobre o comportamento alimentar. É por isso que diretrizes internacionais seguem recomendando que o tratamento seja conduzido por equipes multiprofissionais, integrando acompanhamento médico, nutricional, atividade física e, quando necessário, apoio psicológico.
O GLP-1 pode reduzir a impulsividade alimentar, mas não devemos confundir a diminuição do apetite com a resolução automática de todos os fatores emocionais, sociais e psicológicos envolvidos no comportamento alimentar. Em pessoas com suspeita de transtorno alimentar, o acompanhamento psicológico, psiquiátrico e nutricional continua sendo indispensável, ressalta Hohl.
Essa preocupação também aparece na literatura científica. Estudos clínicos mostram que os medicamentos reduzem fome, desejo por alimentos muito palatáveis e ingestão energética, mas não substituem a construção de novos hábitos nem eliminam, por si só, questões emocionais associadas ao comer. Uma pesquisa publicada em 2025, com usuários de semaglutida para tratamento da obesidade, observou redução expressiva do "food noise" e melhora na percepção de saúde mental e qualidade de vida. Mas os próprios autores destacam que esses resultados precisam ser confirmados por estudos prospectivos e acompanhados de avaliação clínica individualizada.
Um novo olhar sobre a obesidade
Para Alexandre Hohl, os medicamentos à base de GLP-1 constroem um caminho para dois legados inseparáveis. De um lado, há uma nova geração de tratamentos, com medicamentos mais eficazes, combinações de diferentes hormônios, estratégias mais individualizadas; de outro, uma mudança cultural e científica que transforma a maneira como a obesidade é entendida. "Os novos tratamentos mostram que é possível modificar farmacologicamente a fome, a saciedade, a recompensa alimentar e a resposta metabólica. Isso confirma que esses fenômenos têm bases biológicas mensuráveis. Talvez o maior legado seja compreendermos, definitivamente, que o peso corporal não é apenas resultado de escolhas individuais", pondera.
A mudança de paradigma também pode ajudar a reduzir um dos maiores obstáculos enfrentados por pessoas com obesidade: o estigma. Reconhecer que fome, desejo e recompensa são regulados por mecanismos biológicos não elimina a importância dos hábitos de vida, mas desloca a discussão da culpa para o cuidado. E assim chegamos ao aspecto potencialmente mais revolucionário desta nova era: mostrar que tratar a obesidade não significa simplesmente fazer alguém comer menos, mas sim compreender, com muito mais profundidade, por que comer pode ser uma experiência tão diferente de uma pessoa para outra.
“Os medicamentos baseados em GLP-1 (ou duplo agonismo GIP / GLP-1) não encerram a discussão sobre obesidade. Eles inauguram uma medicina mais científica, menos moralista e potencialmente mais humana para cuidar das pessoas que vivem com essa doença”, finaliza o endocrinologista.
Estudos científicos citados ou utilizados para informações complementares:
- “Food noise: definition, measurement, and future research directions”. Disponível em https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12238327/
- “What Is Food Noise? A Conceptual Model of Food Cue Reactivity”. Disponível em https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10674813/
- “Retrospective Assessment of Food Noise Changes After Initiation of Injectable Semaglutide for Weight Management in the USA: The INFORM Survey“. Disponível em https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42217114/
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica individual.
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