Longevidade
Blue zones: guia para longevidade ou mito da saúde? Entenda como conceito passou a ser questionado
Dada como certeza há alguns anos, a ideia de regiões que concentram centenários e seus hábitos saudáveis foi colocada em cheque; especialistas comentam ambos os pontos de vista

Natasha Franco
Jornalista

Em 2004 o jornalista Dan Buettner, da National Geographic, se uniu com o médico italiano Gianni Pes e o demógrafo belga Michel Poulain, que desejavam mapear onde estavam as maiores concentrações de pessoas que passavam dos 100 anos com saúde e entender os segredos da longevidade naqueles locais. Juntos, os três criaram o conceito de Blue Zones, locais em que as pessoas não apenas viviam muito, mas envelheciam sem doenças crônicas.
Os dois cientistas já haviam feito uma investigação na Sardenha, Itália, mas se juntaram ao canal norte-americano para viajarem para lugares como Okinawa (Japão) e Loma Linda (Califórnia), seguindo suas pesquisas e as documentando para o grande público. A jornada foi documentada e divulgada nos canais e mídias da National Geographic, criando grande expectativa no público.
Com o tempo o conceito se popularizou tanto entre o público leigo, quanto entre cientistas. Mas ele era seguido de algumas críticas fracas, evidenciando o "marketing exagerado" e a simplificação de hábitos já existentes. No entanto, o demógrafo Saul Justin Newman (pesquisador da Universidade College London e da Universidade Nacional Australiana) começou a trazer argumentos contrários mais fortes ao debate.
Em 2024, Newman publicou um artigo de análise de dados (preprint) demonstrando que a esmagadora maioria das pessoas registradas com mais de 110 anos (supercentenários) no mundo não possuía certidão de nascimento formal.
O pesquisador revelou que os picos de extrema longevidade coincidiam perfeitamente com locais que historicamente tinham pior manutenção de registros públicos e alta incidência de fraudes de pensão (situações em que o idoso falecia, mas a família não notificava o governo para continuar recebendo a aposentadoria).
O artigo foi agraciado com o prêmio Ig Nobel de Demografia, concedido a estudos científicos sérios que "primeiro fazem as pessoas rir, e depois as fazem pensar".
O que nos leva a questionar, o quanto podemos confiar no conceito de Blue Zones? Por isso, o Prime Health Report conversou com dois especialistas para entender melhor se podemos ou não confiar no conceito.
Primeiramente: o que diz o conceito de Blue Zones?
As Blue Zones de Buettner e Pes envolve locais do mundo em que as pessoas não apenas viviam muito, mas envelheciam sem doenças crônicas. Originalmente, eles mapearam cinco locais:
Sardenha (Itália): Onde tudo começou, famosa pela alta taxa de homens centenários que trabalhavam como pastores;
Okinawa (Japão): Conhecida pelas mulheres mais longevas do mundo e pelo forte senso de comunidade (Moai);
Loma Linda (Califórnia, EUA): Uma comunidade de Adventistas do Sétimo Dia que vivem cerca de 10 anos a mais que a média americana devido à forte espiritualidade e dieta vegetariana;
Icária (Grécia): Uma ilha isolada no mar Egeu com taxas baixíssimas de demência e doenças cardíacas;
Nicoya (Costa Rica): Uma península onde os idosos mantêm uma rotina ativa e baseada em alimentos tradicionais (como milho, feijão e abóbora).
Analisando esses cinco locais, os pesquisadores isolaram nove hábitos que pareciam ajudar na longevidade, os Power 9:
Movimento Natural: As pessoas mais longevas do mundo não frequentam academias ou correm maratonas. Em vez disso, vivem em ambientes que constantemente as impulsionam a se mover sem pensar. Elas cultivam jardins, caminham para o trabalho, limpam a casa manualmente e usam ferramentas mecânicas simples.
Propósito (Ikigai ou Plan de Vida): Saber o motivo pelo qual você acorda todas as manhãs. Ter um propósito claro na vida pode render até sete anos extras de expectativa de vida.
Desacelerar: Até os centenários sofrem estresse, mas eles possuem rotinas diárias para eliminá-lo. Os adventistas rezam, os okinawanos relembram seus ancestrais, os sardenhos fazem um happy hour e os icarianos tiram uma soneca.
Regra dos 80% (Hara Hachi Bu): É o mantra de Okinawa que lembra as pessoas de pararem de comer quando seus estômagos estiverem 80% cheios. Os 20% de diferença podem ser a chave para perder ou ganhar peso. Além disso, as pessoas nas Zonas Azuis fazem sua menor refeição no final da tarde ou início da noite e não comem mais nada pelo resto do dia.
Inclinado a Plantas: O pilar da maioria das dietas dos centenários é o feijão (incluindo fava, lentilha e soja). A carne é consumida em média apenas cinco vezes por mês, em porções pequenas (do tamanho de um baralho).
Vinho: Com exceção dos Adventistas (que são abstêmios), as pessoas nas Zonas Azuis bebem álcool de forma moderada e regular (1 a 2 taças por dia, geralmente vinho tinto Cannonau na Sardenha), sempre com amigos e/ou acompanhando a comida.
Pertencimento: Dos 268 centenários entrevistados nos estudos originais, quase todos pertenciam a alguma comunidade baseada na fé. A pesquisa mostra que frequentar serviços religiosos quatro vezes por mês pode adicionar de 4 a 14 anos de expectativa de vida.
Entes Queridos Primeiro: Centenários mantêm os pais e avós idosos por perto ou em casa, são comprometidos com um parceiro de vida (o que pode adicionar até 3 anos de expectativa de vida) e investem tempo e amor nos filhos.
Tribo Certa: As pessoas que vivem mais escolhem — ou nasceram em — círculos sociais que apoiam comportamentos saudáveis. Os okinawanos criam moais, que são grupos de cinco amigos que se comprometem a apoiar uns aos outros pelo resto da vida. Como comportamentos de saúde (como obesidade e tabagismo) são "contagiosos", ter amigos com hábitos saudáveis molda a sua própria longevidade.
Devemos confiar no conceito de Blue Zones?
Para o geriatra Leonardo Oliva, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), é preciso entender que apenas um questionamento metodológico não invalida todo um corpo de observação populacional. “É natural que existam alguns questionamentos metodológicos, principalmente quando a gente está olhando para os centenários, porém, mesmo que casos extremos possam ser superestimados, aquelas regiões de fato apresentam concentrações incomuns de pessoas longevas”, aponta.
Já o clínico geral e geriatra Paulo Camiz, membro do corpo clínico do Hospital Sírio Libanês, acredita que a crítica é sempre pertinente, já que mudanças de um ano podem interferir na quantidade de centenários de um local. “A gente pode entender coisas boas que aconteceram lá. É importante tirar algumas lições, mas sem transformar esses relatos em uma prova de que isso é a chave secreta da longevidade”, pondera o especialista.
Oliva argumenta que no meio médico, as Blue Zones sempre foram vistas como observações epidemiológicas que acabam gerando hipóteses. “Os hábitos observados nas blue zones podem ser confrontados com evidências provenientes de outros estudos, do tipo longitudinal, de ensaios clínicos e até de pesquisas biológicas. E o que se torna interessante é que vários dos comportamentos descritos (como atividade física regular, alimentação natural, interação social, baixo tabagismo), encontram-se em respaldo em diferentes linhas de evidência científica”, observa.
Oliva reforça como o envelhecimento saudável é algo multifatorial e nenhum pesquisador deve defender aspectos isolados explicando a longevidade. “Fatores como saneamento, vacinação, escolaridade, a renda, acesso à saúde, controle de fatores de risco cardiovascular, condição de vida na infância, sem dúvida nenhuma, são fatores fundamentais para a longevidade e para o envelhecimento”, considera Oliva. Para ele, o pulo do gato das Blue Zones é trazer fatores comportamentais e de estilo de vida aos holofotes do debate.
Camiz concorda e argumenta que mesmo com os questionamentos metodológicos do conceito, não podemos desprezar os itens que são levantados nos Power 9. “Esses hábitos já coincidem com recomendações que já são plenamente advogadas pela medicina. Os pilares do envelhecimento saudável já contemplam tudo isso”, reforça.
Para ambos os geriatras, o ideal é orientar o paciente sem promessas ou mitos. “Esses hábitos, comportamentos e escolhas que fazemos ao longo da vida devem complementar e não substituir a medicina baseada em evidência, porque o paciente precisa, sim, continuar controlando a hipertensão, o diabetes, o colesterol, seguir rastreando as doenças oncológicas que são bem documentadas que necessitam desse tipo de atitude”, reforça o presidente da SBGG.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica individual.
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