Saúde & Ciência
O que é epigenética e como ela pode ajudar na sua prática médica?
Entenda melhor o conceito e como é possível usá-lo em seus pacientes

Natasha Franco
Jornalista

Se todas as células têm o mesmo DNA, como algumas podem se tornar neurônios e outras se tornar hemácias? Como algumas podem produzir músculos lisos e outras gorduras? O que faz com que as células se diferenciem é um processo chamado epigenética.
Carlos Aschoff, geneticista molecular e assessor médico do DB diagnósticos, gosta de comparar esse processo com uma orquestra. “Quando a gente vai ver um concerto, a gente tem um maestro, os múltiplos músicos com seus instrumentos, e o maestro é quem determina o momento que cada instrumento vai entrar, em qual momento ele vai sair, se entram todos de uma vez, então ele é que vai dando essa regulação. Então, é isso que a epigenética significa”, explica.
Através de uma série de mecanismos, alguns genes são ou não lidos por cada célula, o que faz com que alguns de expressem e outros fiquem silenciosos, sem manifestarem a característica que eles representam. “Genes têm a função de codificar enzimas, hormônios, transportadores e receptores. Então, a epigenética é quando, pelo que a gente se expõe, produz no nosso metabolismo, libera moléculas químicas que interagem com o nosso gene e altera a capacidade desse gene se expressar”.
Genética versus ambiente
Além da diferenciação das células, a ciência descobriu que a epigenética entra em cena se relacionando com alguns de nossos hábitos de vida. Isso porque determinadas substância podem ativar alguns dos mecanismos que fazem com que esses genes não sejam lidos.
Para entender isso melhor, primeiro é preciso conhecer alguns desses mecanismos:
Metilação: ocorre quando um radical metil se liga a determinada sequência do DNA, impedindo que ela seja lida. Esse processo só acontece quando há uma citosina seguida imediatamente por uma guanina;
Modificação das histonas: quando as proteínas que ajudam na compactação do DNA são acetiladas, metiladas ou fosforiladas, o que altera quais partes serão descompactadas e lidas dentro da célula;
RNAs não codificantes: são moléculas de RNA transcritas a partir do DNA, mas que não são traduzidas em proteínas, portanto não levam a expressão do gene a que correspondem.
Acontece que a ciência tem demonstrado que muito do que consumimos pode ser relacionar com esses mecanismos. “Os nutrientes ou suplementos que ingerimos que tenha capacidade de realizar mudanças epigenéticas”, reforça a nutricionista Annete Marum, especialista em Genômica Nutricional, coordenadora de pós-graduação em nutrição e medicina de precisão e parceira da Biotec Dermocosméticos.
É claro, esta não é uma ação completamente clara, afinal o corpo possui 37 trilhões de células e o DNA cerca de 20 mil genes. “É extremamente complexo a gente dizer quais são as atividades ou quais são as rotinas que a gente deve ter que melhora ou piora a expressão, ou que vai ter uma melhor ou uma pior resposta”, pondera Aschoff.
Não é possível dizer ainda que determinados hábitos podem ou não ativar determinados genes. A medicina de precisão, no entanto, consegue saber que alguns nutrientes específicos podem funcionar, mas é difícil trazer isso para o consultório médico ainda. “Quando a gente avalia isso em células, essa alteração, ela acontece em poucas horas. Normalmente, quando a gente está falando de ingestão de um nutriente, os artigos trazem uma avaliação mais ou menos em 10 a 12 semanas, porém, é importante se dizer que esse tipo de análise não são avaliados em exames laboratoriais comuns”, considera Marum.
Então por que é importante saber mais sobre a epigenética?
Hoje, a epigenética já consegue ser utilizada em situações específicas. “Ainda vai levar muito tempo, acredito, para ter os testes epigenéticos de forma mais ampla, mas já temos os testes epigenéticos quando a gente está em investigações clínicas específicas para os transtornos de neurodesenvolvimento, para investigação fisiopatológica e diagnóstica de determinados tipos de cânceres, para avaliação de regiões de metilação que está envolvida na gênese de um câncer específico, como o câncer colorretal”, enumera Aschoff.
“Os exames epigenéticos não substituirão os exames de rotina, eles somarão e trarão mais informações moleculares que vão ajudar o médico dentro dos exames de rotina a entender essa individualidade e a serem mais precisos”, antevê Marum.
Outra boa notícia dos estudos epigenéticos é que as alterações que são provocadas por eles podem ser revertidas, apesar de não se saber até quando. “Sabemos é que em células somáticas o processo epigenético é reversível, ele existe e é possível. Mas o quanto ele tem a capacidade de reverter anos e anos, não existe essa informação na literatura científica”, considera a especialista.
A indicação geral de bons hábitos de vida segue sendo importante em consultório, e não só por causa da epigenética. “Mudanças de estilo de vida, geralmente, vão ter múltiplos impactos. Vão ter impactos, sim, na epigenética, mas também em outros campos da nossa vida que acabam gerando um benefício”, reforça Aschoff.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica individual.
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