Saúde Mental & Comportamento
Burnout além do trabalho: por que se fala cada vez mais em esgotamento da vida contemporânea?
Especialistas explicam quando a sobrecarga cotidiana deixa de ser apenas cansaço e se torna um sinal de alerta.
Raquel Drehmer
Jornalista

Tradicionalmente, o burnout é um fenômeno ocupacional, ou seja, relacionado ao trabalho. Mas as transformações na forma de viver, trabalhar e cuidar de si alimentam um debate cada vez mais amplo sobre um estado permanente de exaustão que parece ultrapassar os limites do emprego. A sensação de estar sempre atrasado, devendo atenção a alguém ou tentando dar conta de mais uma tarefa deixou de ser exceção e hoje é parte da rotina de milhões de pessoas.
O expediente termina, mas as mensagens continuam chegando. Entre uma reunião e outra, há filhos para buscar, contas para pagar, pais idosos para acompanhar, estudos para concluir e uma lista interminável de responsabilidades que atravessa o dia, invade a noite e chega ao dia seguinte. Não por acaso, cresce a percepção de que o cansaço deixou de ser o saldo de uma semana difícil para se transformar em um estado quase permanente.
O que é (e o que não é) burnout
Apesar dessa percepção coletiva, a Classificação Internacional de Doenças (CID-11), da Organização Mundial da Saúde (OMS), mantém a definição de burnout como um fenômeno ocupacional, resultante do estresse crônico no ambiente de trabalho que não foi administrado com sucesso. Ele se caracteriza por três dimensões: sensação de exaustão, distanciamento ou cinismo em relação ao trabalho e redução da eficácia profissional. O diagnóstico, para a OMS, não deve ser utilizado para descrever experiências de outras áreas da vida.
Isso, porém, não significa que o sofrimento emocional contemporâneo se restrinja ao ambiente profissional. "Na Psicologia e na área de Saúde Mental do Trabalhador, interpretamos esse esgotamento difuso como um sinal do estilo de vida contemporâneo, no qual as fronteiras entre a vida profissional e a pessoal foram praticamente apagadas. Embora a CID defina o burnout estritamente como um fenômeno ligado ao trabalho, a mente humana não funciona em gavetas separadas. Os mesmos recursos emocionais e cognitivos usados para lidar com prazos, pressões e metas são exigidos para administrar a casa, as finanças, os relacionamentos e a rotina diária", explica Rachel Sette, professora de Psicologia do Centro Universitário Arnaldo, mestre em Administração com pesquisa em comportamento organizacional, carreira e qualidade de vida no trabalho.
A sociedade muda e o sofrimento, também
Essa mudança na organização da vida desperta o interesse também da sociologia. Há décadas, pesquisadores observam que as fronteiras entre trabalho, vida privada e tempo de descanso vêm se tornando cada vez mais permeáveis. A socióloga alemã Hartmut Rosa descreve esse fenômeno como uma aceleração social: a tecnologia prometeu economizar tempo, mas acabou produzindo uma sensação permanente de urgência. Já a socióloga norte-americana Arlie Russell Hochschild demonstrou, em seus estudos sobre trabalho e família, que a lógica da produtividade passou a ocupar também os espaços tradicionalmente reservados ao descanso, ao cuidado e à vida doméstica.
Uma das maiores dificuldades é perceber quando o cansaço deixa de ser uma resposta saudável às exigências da vida e passa a representar um processo de adoecimento. "O estresse adaptativo acontece diante de momentos pontuais de maior exigência, mas sua principal característica é que ele cede quando a pessoa descansa, dorme bem ou passa um fim de semana desconectada. No adoecimento, por outro lado, o descanso deixa de restaurar a energia. A pessoa pode dormir oito horas ou passar semanas de folga e, ainda assim, acordar profundamente exausta", afirma Rachel Sette.
A psicóloga explica que os sinais de alerta aparecem quando corpo e mente começam a “falhar” simultaneamente. Insônia persistente, dores físicas sem causa clínica evidente, alterações digestivas, irritabilidade constante, perda de interesse por atividades antes prazerosas, anestesia emocional e um sentimento recorrente de incompetência indicam que o problema deixou de ser o excesso de tarefas. "Quando o lazer perde a capacidade de relaxar e os dias passam a ser enfrentados com angústia constante, fica evidente que ultrapassamos a linha do cansaço e entramos no campo do sofrimento psíquico estruturado".
E a sensação de esgotamento atinge também aqueles que não se identificam com o diagnóstico tradicional de burnout. Cuidadores, mães, pais, estudantes e pessoas que conciliam diferentes jornadas convivem com demandas contínuas que exigem atenção, responsabilidade e disponibilidade emocional, muitas vezes sem espaço para recuperação. "Esses grupos vivenciam uma sobreposição de tarefas marcada por alta responsabilidade e pouca margem de controle ou pausa. O fator psicológico central é o estado de hipervigilância contínua. O cérebro permanece operando em modo de alerta sem que haja tempo hábil entre uma demanda e outra para desligar o sistema de resposta ao estresse. Quando essa rotina ocorre sem o amparo de uma rede de apoio sólida, a exaustão emocional deixa de ser exceção e passa a ser a regra", diz Rachel Sette.
Neste cenário, pesquisadores têm descrito um processo de "expansão da lógica do desempenho", no qual características antes associadas apenas ao ambiente profissional passaram a orientar praticamente todas as dimensões da vida. O lazer precisa ser produtivo, o autocuidado deve gerar resultados mensuráveis, a parentalidade tem padrões elevados de desempenho e comparação. Essa dinâmica dialoga com a análise do filósofo e sociólogo Byung-Chul Han, para quem a sociedade contemporânea substituiu a disciplina pela autoexigência constante, fazendo com que as pessoas se tornem, simultaneamente, cobradas e cobradoras de si mesmas.
As novas gerações e a ressignificação da forma de lidar com o sofrimento
As diferenças entre gerações reforçam essa transformação. Diversos levantamentos internacionais mostram que adultos mais jovens relatam níveis mais elevados de estresse e maior preocupação com saúde mental do que gerações anteriores. Segundo Rachel Sette, isso não significa necessariamente que eles sofram mais, mas que desenvolveram outra relação com o tema.
"Essa variação resulta de uma combinação entre transformações socioculturais, mudanças nas relações de trabalho e maior acesso à informação sobre saúde mental. As gerações mais velhas foram formadas em uma cultura que valorizava o sacrifício pessoal e a resiliência silenciosa. Já os mais jovens ingressaram em um mercado marcado pela instabilidade, pela flexibilização dos vínculos e pela conectividade ininterrupta. Não se trata de maior ou menor fraqueza, mas de uma mudança de postura cultural: eles nomeiam o sofrimento com mais facilidade, questionam ambientes tóxicos e colocam o bem-estar emocional como um critério importante na construção da carreira", observa a psicóloga.
Recuperar espaços de descanso é parte da solução
Para a psicóloga, enfrentar essa realidade exige mais do que férias ocasionais ou pequenas mudanças de rotina. "A ação mais importante é a repactuação de limites: aprender a dizer não, renegociar prazos, redistribuir responsabilidades tanto no trabalho quanto em casa. Também é imprescindível estabelecer momentos de desconexão digital e incluir atividades que não envolvam metas, desempenho ou contagem de resultados. E compreender que férias funcionam para o cansaço comum, mas não curam transtornos mentais nem um burnout estruturado. Oferecem, no máximo, um alívio temporário."
Ela finaliza recomendando que o acompanhamento psicológico ou psiquiátrico seja buscado quando a sobrecarga passar a comprometer atividades cotidianas, o sono deixar de restaurar as energias ou surgirem sintomas persistentes, como desesperança, irritabilidade intensa e distanciamento emocional das pessoas próximas. Nesses casos, o objetivo não é apenas aliviar o cansaço, mas reconstruir formas mais saudáveis de lidar com as pressões da vida.
Estudos científicos e livros citados ou utilizados para informações complementares:
- “Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Internacional de Doenças – CID-11. Burn-out (QD85)”. Disponível em: https://icd.who.int/browse/2025-01/mms/en#/http://id.who.int/icd/entity/129180281
- “The Managed Heart: Commercialization of Human Feeling”, livro de Arlie Russell Hochschild
- “The Time Bind: When Work Becomes Home and Home Becomes Work”, livro de Arlie Russell Hochschild
- “Social Acceleration: A New Theory of Modernity”, livro de Hartmut Rosa
- “Sociedade do Cansaço”, livro de Byung-Chul Han
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica individual.
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