Saúde Mental & Comportamento
O cérebro precisa de descanso: a economia da atenção está remodelando ansiedade, foco e exaustão mental
Como o excesso de estímulos digitais afeta o foco, aumenta a fadiga mental e desafia a capacidade de concentração.
Raquel Drehmer
Jornalista

Você termina o dia com a sensação de que fez muita coisa, mas concluiu muito pouco. Interrompe um relatório para responder uma mensagem, aproveita alguns segundos na fila do café para conferir as redes sociais e, antes de dormir, passa mais meia hora rolando o feed "para relaxar". Sem perceber, seu cérebro passou o dia alternando entre dezenas (às vezes centenas) de estímulos diferentes. A exaustão que surge ao final da jornada nem sempre vem do esforço físico. Muitas vezes, ela é consequência da forma como nossa atenção passou a ser disputada.
Este fenômeno tem nome: economia da atenção. Em um ambiente digital em que a informação é abundante, às vezes até excessiva, a atenção humana tornou-se um recurso valioso. Plataformas, aplicativos e redes sociais são desenvolvidos para capturar o olhar, prolongar o engajamento e estimular interações constantes. O resultado é um cotidiano marcado por interrupções frequentes, alternância de tarefas e uma sensação permanente de urgência que começa a remodelar a maneira como pensamos, aprendemos e nos relacionamos com o mundo.
Um cérebro treinado para não parar
O mercado entendeu rapidamente que certos estímulos são capazes de engajar as pessoas de forma mais eficiente. Conteúdos contrastantes que se diferenciem do padrão, que surgem de forma abrupta, que despertam curiosidade, assombro surpresa ou outras emoções de alta intensidade, como indignação ou raiva, se destacam naturalmente, chamam a atenção e geram a resposta do engajamento, observa a neurocientista Ana Carolina Souza, doutora pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e especialista em Neurociência Comportamental.
Ela complementa, apontando um problema derivado disso: “Quando estamos em contato com milhares de conteúdos e estímulos de forma praticamente ininterrupta, ativamos em nosso cérebro padrões que gastam mais energia, associados à filtragem e processamento de informações e à tomada de decisão”.
Na prática, o cérebro passa menos tempo dedicado ao pensamento profundo e mais tempo respondendo a pequenos estímulos. Embora muitas pessoas acreditem que conseguem realizar várias tarefas simultaneamente, a neurociência mostra que, quando duas atividades exigem atenção consciente, o cérebro não faz multitarefa: ele alterna rapidamente o foco entre elas. Esse processo, conhecido como task switching, tem um custo cognitivo importante: cada interrupção exige alguns instantes para que a atenção seja retomada, tornando o raciocínio mais superficial e aumentando o esforço mental.
A sensação de estar ocupado o tempo todo
Segundo a psicóloga Anna Lucia Spear King, doutora em Saúde Mental e coordenadora da primeira pós-graduação em Dependência Digital da América Latina, o ambiente digital estimula justamente esse comportamento fragmentado que pode modificar e reduzir a capacidade de concentração ao longo do tempo.
O cérebro humano é altamente adaptável. Se a mente é treinada para passar horas focada em uma leitura profunda, torna-se eficiente nisso. Por outro lado, se é habituada a buscar uma nova recompensa a cada dois ou três minutos, fica treinada para se distrair. Em longo prazo, circuitos neurais associados à atenção sustentada enfraquecem, enquanto caminhos ligados à busca por novidades imediatas e à impulsividade são fortalecidos, explica.
A consequência aparece na rotina. Mesmo quando o celular permanece silencioso sobre a mesa, sua simples presença já pode consumir parte dos recursos cognitivos. O cérebro mantém um esforço inconsciente para resistir à tentação de verificar notificações, reduzindo a memória de trabalho disponível para a tarefa principal. Some-se a isso o desenho das plataformas digitais, baseado em recompensas imprevisíveis (mecanismo semelhante ao utilizado em jogos), que mantém elevada a expectativa por uma nova mensagem, curtida ou informação relevante.
Por que ficamos cansados sem sair da cadeira?
Se o corpo permanece praticamente imóvel, como a sensação de esgotamento pode ser tão intensa? A resposta está no funcionamento do próprio cérebro. Responsável por consumir cerca de 20% da energia do organismo, ele gasta ainda mais recursos quando precisa filtrar informações, tomar decisões, alternar o foco e inibir distrações. Em um único dia, milhares de microdecisões são tomadas quase automaticamente. Responder agora ou depois? Abrir esta notificação? Continuar lendo ou verificar a mensagem recém-chegada?
"O mau hábito de ‘descansar rolando o feed’ acaba gerando um paradoxo. A pessoa acredita que está em pausa para recuperar as energias, mas na verdade está sobrecarregando ainda mais o cérebro, apenas mudando a categoria de estímulo, sem tempo para a recuperação”, diz Ana Carolina Souza. É justamente por isso que atividades como caminhar ao ar livre, ler um livro, cozinhar, cuidar de plantas ou praticar meditação costumam proporcionar uma sensação de descanso mais genuína. Elas reduzem a intensidade da estimulação e favorecem a restauração dos recursos cognitivos.
Estamos mais ansiosos ou mais estimulados?
A popularização das tecnologias digitais também alimentou uma percepção comum: a de que todos estamos mais ansiosos. Embora exista relação entre os dois fenômenos, especialistas alertam que hiperestimulação e ansiedade não são sinônimos. A primeira é uma resposta do cérebro a um ambiente saturado de estímulos; a segunda, uma condição emocional que pode persistir mesmo quando esses estímulos desaparecem.
"Se há um alívio rápido quando a pessoa se afasta das telas e reduz o volume de mensagens ou multitarefas, significa que o quadro está relacionado com a hiperestimulação. Já a ansiedade tende a persistir independentemente dos estímulos externos imediatos, porque está relacionada a pensamentos negativos, ruminação mental, medo de errar, de ser julgado, que algo ruim aconteça", esclarece Anna Lucia Spear King. Observar se há melhora após períodos de desconexão pode ajudar a diferenciar um quadro do outro, embora sintomas persistentes devam sempre ser avaliados por um profissional de saúde.
Estudos recentes ajudam a explicar por que essa distinção é importante. Uma revisão publicada em 2024 concluiu que notificações frequentes, alternância constante de tarefas e uso compulsivo de smartphones estão associados à piora da atenção sustentada, ao aumento da fadiga mental e à percepção de estresse, mesmo em pessoas sem diagnóstico de transtornos psiquiátricos. Outra revisão sistemática identificou que o uso problemático de smartphones apresenta associação consistente com sintomas de ansiedade, depressão e pior qualidade do sono, embora fatores individuais, sociais e emocionais também influenciem essa relação. Esses achados reforçam que o ambiente digital pode amplificar o sofrimento psíquico, mas não explica sozinho todos os casos.
Recuperar a atenção também é um treino
A boa notícia é que a mesma plasticidade cerebral que favorece hábitos de distração permite reconstruir a capacidade de concentração. Desativar notificações desnecessárias, reservar períodos exclusivos para trabalho profundo, estabelecer limites para o uso de redes sociais e criar momentos deliberados de desconexão são estratégias respaldadas pela literatura científica. Da mesma forma, atividades que exigem dedicação contínua, como leitura, jardinagem, pintura, jogos de estratégia, culinária ou prática regular de exercícios físicos, ajudam a fortalecer circuitos relacionados ao foco sustentado e ao autocontrole.
O maior desafio da era digital não é mais reduzir o tempo de tela, mas recuperar a capacidade de escolher conscientemente para onde direcionamos nossa atenção. Em um mundo que disputa cada segundo do nosso foco, preservar momentos de concentração profunda deixou de ser apenas uma habilidade produtiva e se tornou uma forma de proteger a saúde do cérebro.
Estudos científicos citados ou utilizados para informações complementares:
- “Smartphones and Cognition: A Review of Research Exploring the Links between Mobile Technology Habits and Cognitive Functioning”. Disponível em
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5403814/
- “Cell phone addiction and psychological and physiological health in adolescents”. Disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6449671/
- “Let’s FOCUS: Mitigating Mobile Phone Use in College Classrooms”. Disponível em https://dl.acm.org/doi/10.1145/3130928
- “Brain Drain: The Mere Presence of One's Own Smartphone Reduces Available Cognitive Capacity”. Disponível em https://www.journals.uchicago.edu/doi/full/10.1086/691462
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica individual.
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