Saúde & Ciência
Canetas emagrecedoras além da Endocrinologia
Veja como usar em sua especialidade
Natasha Franco
Jornalista

Análogos de GLP-1 e outras incretinas podem ajudar no tratamento de outros tipos de inflamações.
Quando a exenatida começou a ser vendida em 2005 ou, mais tarde, quando a liraglutida foi lançada em 2010 como medicamento para diabetes e se popularizou como forma de emagrecimento, muitos viram como aquilo seria revolucionário, mas poucos devem ter previsto a febre que a semaglutida (sob nome comercial de Ozempic) e a tirzepatida (vendida como Mounjaro) causariam.
Hoje, ambos os medicamentos são vistos como uma solução rápida para o tão sonhado emagrecimento não só ajudando pessoas com diabetes e obesidade (seus usos on-label), mas até servindo como opção para quem “só quer perder três quilinhos”. Mal sabem que esses são apenas uma fração dos benefícios à saúde que esses medicamentos podem trazer.
“A percepção popular de que os agonistas do receptor de GLP-1 são apenas ‘medicamentos para emagrecer’ simplifica excessivamente o que essas moléculas realmente fazem”, reforça a endocrinologista e Ph.D Alessandra Rascovski, autora do livro “Atmasoma – O equilíbrio entre a ciência e o prazer para viver mais e melhor”.
A endocrinologista Andressa Heimbecher, doutora em Obesidade pela Universidade de São Paulo, reforça como o GLP-1 tem sido estudado há algum tempo e há muito já se sabe que ele possui atuação em diversos órgãos e sistemas do corpo como nas células de gordura, pâncreas, rins, coração, fígado, sistema musculoesquelético, vasos sanguíneos e até na neuroproteção. “Quando foram desenvolvidos medicamentos que são análogos de GLP-1 e nós vimos os estudos, percebemos, por exemplo, a redução de PCR. Então, começávamos a entender que o medicamento também tinha ações maiores, mais potentes”, explica a especialista.
O que é o GLP-1 e seus análogos?
Antes de falar sobre os usos do GLP-1, é importante explicar o que é esse hormônio e qual é sua função no organismo. Ele é uma incretina, produzido pelo intestino para ajudar na comunicação entre o órgão e o cérebro, contribuindo para o entendimento da saciedade. “Mais de 60% da insulina liberada no pós-refeição se deve a ação dessas substâncias”, explica Heimbecher.
Hoje, a liraglutida e a semaglutida são as substâncias usadas pelos laboratórios para atuar como o GLP-1 no organismo; já a tirzepatida atua como agonista também do GIP, outra incretina importante para o organismo, com funções complementares ao GLP-1.
Mas, no final das contas, a saciedade e redução do apetite apresentadas ao ingerir os análogos do GLP-1 são apenas algumas das manifestações deste medicamento no organismo. “O que observamos na prática é uma melhora global do ambiente metabólico e inflamatório que acompanha condições como obesidade, diabetes tipo 2, doença hepática gordurosa associada à disfunção metabólica (MASLD), doença cardiovascular e possivelmente alguns tipos de câncer”, enumera Rascovski.
Em quais outras especialidades é possível usar os análogos de GLP-1?
Para Heimbecher, o divisor de águas nessa história toda foi o estudo SELECT, realizado com 17.604 pacientes (com idade média de 61,6 anos e IMC 33,3 kg/m2) com alto risco cardiovascular (prevenção secundária – 95% com IAM e/ou AVC prévios). “O estudo mostrou que pacientes com sobrepeso e obesidade tiveram redução de 20% de eventos cardiovasculares na dosagem de 2,4 mg”, explica a endocrinologista.
Mais recentemente, a oncologia passou a observar fenômeno semelhante. Estudos apresentados na ASCO 2026 mostraram associação entre o uso de agonistas de GLP-1 e menor incidência de diversos cânceres relacionados à obesidade, além de menor progressão metastática em pacientes previamente diagnosticados com tumores como câncer de mama, colorretal, pulmão e fígado. “Importante ressaltar que são estudos de associação, ou seja, não provam que estas moléculas por si só, são ‘medicamento anticâncer’, reforça Rascovski.
Confira a seguir como diferentes especialidades podem encontrar aliados nos análogos de GLP-1:
Hepatologia: estudos recentes demonstraram redução importante da gordura hepática, melhora da inflamação e regressão de formas avançadas da MASLD/MASH, uma das doenças crônicas que mais crescem no mundo.
Cardiologia: já existem evidências robustas demonstrando redução de eventos cardiovasculares maiores, insuficiência cardíaca e melhora de fatores de risco cardiometabólicos.
Oncologia: os dados ainda são emergentes, mas estudos observacionais apontam possível redução da incidência de alguns cânceres relacionados à obesidade e menor progressão metastática após o diagnóstico.
Reumatologia: a redução do peso corporal diminui a sobrecarga articular e melhora sintomas de osteoartrite, especialmente em joelhos. Também já existem estudos que indicam que pacientes com artrite reumatoide e obesidade, apresentaram menor atividade clínica da doença, redução da dor e melhora dos biomarcadores inflamatórios. Em relação à psoríase e artrite psoriática, em pacientes usando tirzepatida em combinação com imunobiológicos, as taxas de melhora da dor articular e controle das lesões de pele foram bem maiores. Isso demonstra que há um provável efeito imunomodulador direto, com redução das citocinas inflamatórias e até se postula efeito benéfico nas células das cartilagens.
Dermatologia: estudos iniciais também demonstram a atuação dos análogos de GLP-1 na dermatite atópica em pessoas com obesidade. Uma revisão sistemática publicada na revista científica Diseases, de abril de 2025, mostrou que esses medicamentos apresentam um amplo espectro de efeitos dermatológicos, desde benefícios imunomoduladores até reações cutâneas adversas, e que seu impacto em doenças inflamatórias da pele sugere uma nova via terapêutica.
Neurologia: existem estudos em andamento avaliando possíveis benefícios em doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson, baseados nos efeitos anti-inflamatórios, metabólicos e neuroprotetores dessas moléculas.
Ginecologia e Medicina Reprodutiva: em mulheres com obesidade e síndrome dos ovários policísticos, os agonistas de GLP-1 podem auxiliar na melhora da resistência à insulina, do peso corporal e de parâmetros metabólicos associados à função reprodutiva. Também podem trazer benefícios indiretos durante a transição menopausal, ao favorecer de forma relevante o controle do peso e do risco cardiometabólico.
Geriatria e Medicina da Longevidade: ao atuar simultaneamente sobre obesidade, diabetes, inflamação, fígado gorduroso, risco cardiovascular e qualidade do sono, essas terapias impactam múltiplos pilares relacionados ao envelhecimento saudável.
Tratar a obesidade parece ser a chave
Em todos os estudos, pacientes com obesidade e comorbidades obtiveram sucesso em seus tratamentos. “Grande parte dos pacientes acompanhados por cardiologistas, neurologistas, oncologistas, hepatologistas, pneumologistas e geriatras apresenta algum grau de obesidade, resistência insulínica, síndrome metabólica ou disfunção adiposa”, considera Rascovski, que conclui: “Essas alterações frequentemente representam um denominador comum entre diferentes doenças crônicas”.
Mas vale reforçar que, como tudo na medicina, não podemos considerar essas medicações uma panaceia. “Essas medicações não devem ser vistas como soluções isoladas. O melhor resultado ocorre quando são inseridas dentro de uma estratégia mais ampla que inclui alimentação, atividade física, sono, saúde mental e acompanhamento multiprofissional”, considera a endocrinologista.
De todo modo, vale sempre se atualizar nesse assunto e questionar: será que meus pacientes poderiam se beneficiar com esse tipo de tratamento?
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica individual.
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