Alimentação & Metabolismo
Alimentação afetiva: o prazer à mesa também faz parte da saúde
Prazer, memória e vínculos também influenciam nossa relação com a comida e podem coexistir com uma alimentação equilibrada.
Raquel Drehmer
Jornalista

Prazer, memórias e vínculos também fazem parte de uma alimentação saudável. Comer com mais atenção e flexibilidade pode favorecer uma relação mais equilibrada com a comida, embora os efeitos sobre peso e metabolismo ainda sejam incertos.
Durante boa parte da história da alimentação saudável, o prazer parece ter ocupado o papel de “vilão”. Calorias, nutrientes, porções e restrições ganharam protagonismo, enquanto o sabor, as memórias e a experiência de se sentar à mesa foram muitas vezes tratados como elementos secundários, ou até como ameaças à disciplina rumo à saúde “perfeita”.
Mas comer está longe de ser apenas uma operação biológica. “A alimentação afetiva refere-se aos contextos emocional, cultural e relacional da comida. O fato é que comer nunca é só um ato biológico de nutrição, é um prazer que alimenta as nossas emoções”, explica a nutricionista Vanessa de Santis, que atua em saúde da mulher, saúde intestinal e hepática, nutrição esportiva e qualidade de vida.
A comida também conta histórias
Uma receita de família carrega a memória de uma infância; um prato preparado por alguém querido representa cuidado; uma refeição compartilhada marca uma celebração ou simplesmente transforma um dia comum. Esses significados fazem parte do que a ciência vem chamando de “eating pleasure”, ou prazer alimentar.
Uma revisão de escopo publicada em 2020 por Alexandra Bédard, na revista PLOS ONE, analisou 119 trabalhos e identificou 22 dimensões relacionadas a essa experiência. Entre as mais frequentes estavam aspectos sensoriais, experiências sociais, preparo dos alimentos, variedade, atenção ao ato de comer, local da refeição e memórias associadas à comida. A revisão também encontrou, na maior parte dos estudos que investigaram comportamento alimentar, associações favoráveis entre prazer e escolhas alimentares, embora os resultados relacionados diretamente à saúde fossem menos consistentes.
Isso ajuda a ampliar a compreensão sobre o que significa comer bem. O prazer não precisa estar restrito aos alimentos considerados “especiais”, nem significa comer sempre aquilo que oferece maior recompensa imediata. Pode estar no aroma de uma refeição preparada em casa, na textura de um alimento, na descoberta de um sabor, no tempo dedicado ao preparo ou na companhia durante o almoço. Nesta revisão, estratégias que exploravam o ato de cozinhar, refeições compartilhadas, atenção plena e memórias positivas relacionadas a alimentos saudáveis apareceram como caminhos promissores para favorecer comportamentos alimentares mais adequados.
Prazer não é sinônimo de descontrole
É justamente nesse ponto que alimentação afetiva e comer emocional precisam ser diferenciados. Na primeira, o afeto está relacionado à memória, à cultura, aos vínculos e ao prazer de comer. No segundo, a comida passa a funcionar principalmente como uma estratégia para lidar com emoções difíceis.
“A característica central não é ‘gostar de comer com significado afetivo’, mas sim recorrer ao ato de comer como principal (ou único) recurso disponível para aliviar um desconforto emocional”, explica a nutricionista. Segundo ela, observar o gatilho e o grau de consciência durante a refeição pode ajudar nessa distinção: a alimentação afetiva está ligada a uma lembrança ou vínculo, o comer emocional aparece associado a ansiedade, tristeza, tédio, raiva ou solidão, e pode ocorrer de maneira automática. “Sabe quando falamos ‘preciso de chocolate, hoje foi um dia muito estressante’? Isso é uma situação de comer emocional”, exemplifica.
A diferença também ajuda a questionar a ideia de que uma alimentação saudável precisa ser marcada por controle permanente. Para Vanessa, a associação entre prazer e falta de disciplina foi reforçada por uma cultura alimentar que moraliza as escolhas e classifica alimentos como “bons” ou “ruins”. “Com toda certeza é possível unir prazer e equilíbrio, até porque restrição gera estresse e compulsão. Por isso, oriento uma alimentação prazerosa e equilibrada. O prazer em comer faz com que o plano alimentar orientado seja sustentado”, afirma.
Comer com presença muda a experiência
Uma parte importante dessa relação passa pela atenção. Comer diante de telas, às pressas ou sem perceber o que está no prato pode transformar a refeição em uma atividade automática, dificultando a percepção de fome, saciedade e satisfação. O mindful eating propõe justamente trazer consciência para a experiência alimentar, observando sensações, pensamentos e emoções sem julgamento.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026 por Khaleda Ahmadyar, na Clinical Psychology Review, reuniu 41 artigos sobre intervenções de mindfulness e mindful eating. A análise encontrou redução da ingestão alimentar, mas não identificou efeito estatisticamente significativo sobre o apetite.
A evidência, portanto, não autoriza concluir que comer com atenção simplesmente “acelera o metabolismo” ou faz a fome desaparecer. A relação é mais complexa. Outra revisão sistemática e meta-análise, publicada em 2024 por Paola Iaccarino Idelson, Lanfranco D’Elia e Pasquale Strazzullo, avaliou 14 estudos clínicos randomizados sobre mindful eating e fatores de risco cardiometabólicos. Os resultados mostraram que a abordagem foi comparável a outras intervenções reconhecidas para os desfechos clínicos analisados e indicaram benefícios em alguns parâmetros, mas também revelaram resultados heterogêneos para peso, IMC, circunferência da cintura, glicemia, hemoglobina glicada e proteína C-reativa. O trabalho encontrou ainda melhora de aspectos como comportamento alimentar, compensação psicológica com comida, sintomas de compulsão, estresse e ansiedade em diferentes estudos.
O que emerge desse conjunto de evidências é menos uma promessa metabólica e mais uma mudança de perspectiva: a forma como a pessoa se relaciona com a comida pode influenciar comportamentos que, por sua vez, têm impacto sobre a saúde. “Podemos considerar que há evidência consistente de melhora em comportamentos, no sentido de menos comer emocional/externo e mais autorregulação, mas efeitos diretos sobre metabolismo e peso ainda são heterogêneos e limitados metodologicamente, exigindo mais estudos controlados”, afirma Vanessa.
Em outras palavras, prestar atenção ao que se come, reconhecer sinais corporais e reduzir o automatismo podem ser componentes de uma relação alimentar mais saudável, mas não substituem os demais fatores que determinam a saúde metabólica.
Afeto também cabe na rotina
Incorporar a alimentação afetiva ao cotidiano não exige transformar cada refeição em um ritual elaborado. Para a nutricionista, a chave é justamente a flexibilidade. Comer com menos distrações, permitir-se escolher alimentos prazerosos sem culpa, alternar praticidade e preparo de pratos com significado, compartilhar refeições quando possível e deixar espaço para reconhecer fome e saciedade são atitudes que podem tornar a experiência mais consciente. “A chave é flexibilidade: cada atitude é um convite, não uma obrigação. Se virar regra’ perde a essência afetiva que é justamente relaxar o controle”, observa a especialista.
Essa flexibilidade também significa reconhecer que prazer e nutrição podem coexistir. Uma alimentação equilibrada não precisa excluir alimentos escolhidos pelo sabor, pela memória ou pelo significado cultural. Ao mesmo tempo, isso não significa atender automaticamente a todo desejo provocado por uma emoção.
“Para recuperar o equilíbrio, é importante reintroduzir alimentos considerados ‘proibidos’, sem culpa, e reconectar com sinais reais de fome e saciedade, não regras externas”, explica Vanessa. Ela ressalta ainda a importância de desenvolver outras maneiras de lidar com emoções difíceis, como conversar, descansar, movimentar-se ou realizar uma atividade prazerosa, para que a comida não se torne o único recurso disponível.
Nada de assumir um papel de “nova regra alimentar”: a alimentação afetiva propõe a reflexão que vai além do que está no prato, chegando no como, por que e com quem estamos comendo. Memórias, vínculos, prazer sensorial e atenção podem fazer parte de uma alimentação que também considera nutrientes e saúde metabólica. Reconhecer essa dimensão humana da comida é justamente uma maneira de sair da lógica de “tudo ou nada” e construir, ao longo do tempo, uma relação sustentável com a comida.
Estudos científicos citados ou utilizados para informações complementares:
- “Can eating pleasure be a lever for healthy eating? A systematic scoping review of eating pleasure and its links with dietary behaviors and health” – Disponível em https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371%2Fjournal.pone.0244292
- “Effects of mindfulness and mindful eating on food intake and appetite: a systematic review and meta-analysis” – Disponível em https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42341365/
- “Mindful Eating Approaches to Cardiometabolic Risk Factors: Systematic Review and Meta-Analysis of Intervention Studies” – Disponível em https://www.mdpi.com/2674-0311/3/3/22
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica individual.
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